Como será a agricultura na pós-pandemia?

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Conclusão é fruto do painel sobre oportunidades e desafios do agronegócio ocorrido durante a Expoagro Afubra

O diretor de Pesquisa e Desenvolvimento, Guy de Capdeville, representou a Embrapa nesta quinta-feira (18/3) no evento “Conecta Expoagro Afubra”, promovido pela Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), no período de 17 a 19 de março. Capdeville participou como debatedor no painel “Os desafios e oportunidades do agronegócio” junto com o diretor-presidente da Agro-Comercial Afubra Ltda., Romeu Schneider; o presidente do Sistema Farsul (Farsul/Senar/Casa Rural), Gedeão Pereira; e o professor da USP e FGV, Marcos Fava Neves.

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Essa é a 19ª edição do evento e a segunda realizada de forma virtual sobre o tema “Ligando o campo à cidade”. Os painelistas enfatizaram a importância do agro brasileiro para a economia nacional e ressaltaram que a digitalização no campo, a diversificação de culturas e a sustentabilidade serão os maiores desafios para os produtores rurais no período de pós-pandemia.

Segundo o diretor da Embrapa, os efeitos da pandemia apontam para o crescimento de uma economia chamada de baixo ou nenhum contato (low ou no touch economy). E, nesse sentido, a agricultura de precisão é uma das respostas para que os agricultores mantenham a produtividade no campo. Segundo ele, as ferramentas digitais, como inteligência artificial, internet das coisas e uso de drones, entre outras, já são uma realidade no Brasil e muito bem aceitas pelos produtores. “O agricultor brasileiro apoia a ciência e incorpora rapidamente as novas tecnologias no campo. A digitalização permite, por exemplo, manejar e controlar pragas a partir de um aplicativo. E esse é apenas um dos inúmeros resultados nessa área”, destacou.

O professor da USP e FGV, Marcos Fava Neves, endossou a importância da agricultura de precisão e ressaltou que, graças ao aumento no uso das ferramentas digitais e à necessidade de fortalecer a sustentabilidade no campo, o conceito que importa para a dimensão da produção agrícola hoje não é mais hectares e sim metros quadrados. A sustentabilidade é um conceito que veio para ficar e impôs uma transformação no conceito de rentabilidade agropecuária. “O importante é investir em tecnologias que permitam aumentar a produção por área e não expandir espaços dedicados aos cultivos”, ressaltou.

Capdeville complementou lembrando que a agricultura de precisão, a partir de instrumentos de monitoramento por satélite, sensoriamento remoto e georreferenciamento, permite monitorar a produção agrícola em detalhes nas propriedades rurais, “literalmente em metros quadrados”, pontuou.

A diversificação de culturas é uma tendência defendida pela Afubra desde a década de 1970, especialmente junto aos produtores de tabaco. Trata-se de um setor de grande importância, especialmente para a região Sul, onde representa 15% do agro gaúcho, movimentando cerca de 2 bilhões de dólares, uma área de 126 mil hectares e 73 mil famílias, sendo a maioria formada por pequenos agricultores.

Hoje, a Associação conta com mais de 100 técnicos para auxiliar os produtores na adoção de tecnologias mais sustentáveis.

A Afubra tem trabalhado na diversificação de sua área de atuação e, recentemente, inaugurou uma unidade de produção de grãos, que já resultou no beneficiamento de aproximadamente 10 mil sacas.

Outro campo no radar da Associação é a produção de energia renovável. “Para auxiliar os produtores na comercialização de seus produtos, foi criado um e-commerce, que entrará em funcionamento em breve”, explicou o diretor-presidente da Agro-Comercial Afubra Ltda., lembrando que essa já é uma das respostas da entidade ao “novo normal”.

Duas parcerias já foram realizadas entre a Associação e a Embrapa: uma para o desenvolvimento de sementes de feijão de alta performance e outra para melhoramento genético de batata-doce. Tanto a Afubra como o do Sistema Farsul atuam de forma integrada com todas as UDs a região Sul.

Elza Fiúza/Agência Brasil

O desenvolvimento de sistemas integrados, que aliam agricultura, pecuária e florestas (ILPF) estão entre as prioridades do Sistema Farsul, especialmente no que se refere à união entre soja e pecuária. O diretor da Embrapa lembrou que esses sistemas são uma boa opção também para a fumicultura.

Cenário positivo a partir do segundo semestre

Fava Neves defendeu que o segundo semestre de 2020 representará o início de uma era de melhoria econômica para o Brasil. Com o fortalecimento de países como China, EUA e Índia, as exportações do agro, que hoje já representam 48% do total, devem crescer ainda mais.

Além disso, destacam-se também os preços das commodities, que são os mais altos desde 2014, e o setor de biocombustíveis, no qual o País é líder absoluto, que está crescendo de forma significativa em nível mundial.

O protagonismo do agro brasileiro é incontestável, destacou o professor, lembrando que de todos os frangos e bifes bovinos comercializados no mundo, um é nosso. O mesmo vale para os grãos de soja, dos quais um em cada dois é brasileiro. Sem falar que, mesmo em um cenário de pandemia, o setor de grãos cresceu 4% em relação à safra 2019/20, com uma produção de 272 milhões de toneladas de grãos.

Fava Neves e Capdeville ressaltaram que é fundamental que os produtores invistam em tecnologias sustentáveis ao longo de todo o processo produtivo, desde o planejamento até a colheita.

Desafios e oportunidades

O diretor da Embrapa ressaltou a certificação de sustentabilidade das áreas de produção como uma das oportunidades de crescimento para os agricultores. Ele citou como exemplo o selo “Carne Carbono Neutro”, que é uma marca-conceito, parametrizável e auditável, criada com o objetivo de atestar a carne bovina produzida em sistemas de integração do tipo silvipastoril (pecuária-floresta) ou agrossilvipastoril (lavoura-pecuária-floresta), por meio de uso de protocolos específicos que possibilitam o processo de certificação. Segundo Capdeville, esse selo de sustentabilidade agrega alto valor aos produtos e pode ser estendido a outras culturas agrícolas.

Em relação a outro desafio apontado pelo diretor da Afubra, o que define a agricultura como eficiente apenas da porteira para dentro, Capdeville enfatizou o papel da Embrapa no apoio à elaboração de políticas públicas. “As ferramentas de sensoriamento remoto e georreferenciamento podem contribuir muito com o monitoramento da produção da porteira para fora”, frisou.

Soluções da Embrapa para reduzir a dependência de fertilizantes

Outro gargalo enfrentado pelo setor produtivo é o alto preço dos fertilizantes importados.

Nesse sentido, o diretor da Embrapa lembrou que a produção de fertilizantes biológicos, capazes de reduzir a dependência do País em relação aos produtos vindos do exterior é uma das prioridades do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Prova disso, é Programa Nacional de Bioinsumos, lançado em 2020, com o objetivo de aproveitar o potencial da biodiversidade brasileira para reduzir a dependência dos produtores rurais em relação aos insumos importados e ampliar oferta de matéria-prima para esse setor.

A Embrapa desenvolveu recentemente, em parceria com a iniciativa privada, dois produtos nessa linha.

O primeiro é o BiomaPhos, um inoculante desenvolvido a partir de duas bactérias identificadas pela Embrapa, sendo uma no solo e a outra no milho, e o segundo é o Aprinza, que contém uma bactéria da Amazônia (Nitrospirillum amazonense), capaz de fixar nitrogênio do solo para aumentar a produtividade da cana-de-açúcar.

Todas essas soluções tecnológicas já estão no mercado à disposição do setor produtivo, pontuou Guy, lembrando que outros estudos estão em andamento, inclusive usando nanotecologia. “Esses esforços comprovam que a Embrapa é parceira do produtor. Ajustamos a nossa governança de PD&I para ficarmos cada vez mais próximos do setor produtivo”, complementou.

Em momentos de pandemia, a capacitação on-line tem ganhado força na Empresa pela plataforma gratuita e-Campo.

Original de Embrapa