Legado da pandemia, Inflação de salários e desemprego

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Pandemia destrói milhões de empregos e renda; programas assistenciais ajudam e adiam retorno ao trabalho

Sem ser convidada e com jeito de quem chegou para ficar, a pandemia está sob combate com vacinação mais acelerada na maioria dos países e as economias se erguem. Apesar dos prejuízos exponenciais, as expectativas são favoráveis para o reequilíbrio entre oferta e demanda por bens e a tese de reflação global ancorada no salto de preços das commodities arrefece.

Contudo, não há garantia de trabalho para milhões de desempregados que a Covid-19 contratou e a inflação de salários mostra a cara sobretudo nos Estados Unidos que registra, porém, forte aumento de produtividade. O Brasil convive com desemprego recorde e produtividade retornando a níveis historicamente baixos, após um avanço observado durante o ápice da pandemia  – muito em função do home office que mudou as relações de trabalho. Neste contexto, para onde vai o emprego? E como isso afeta as decisões econômicas? Sobre essas questões essenciais o EXAME In ouviu quatro influentes especialistas, no Brasil e nos Estados Unido.

O quanto o mundo perdeu com a pandemia, por um lado, está cada dia mais claro. No mundo, a pandemia destruiu US$ 4 trilhões de renda do trabalho e encolheu o Produto Interno Bruto (PIB) em quase 4% em 2020. Esse cenário de terra arrasada vai ficando para trás e graças à vacinação e ao suporte de programas emergenciais concedidos por governos. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que a pandemia gerou um déficit global de 75 milhões de empregos neste ano. No ano que vem, porém, o mundo provavelmente ainda terá 23 milhões de empregos a menos que no período pré-Covid-19.

A escassez de emprego deve gerar pressões inflacionárias por aumento de salários oferecidos por empresas para reter ou contratar funcionários, o que já acontece nos Estados Unidos. Mas uma grande massa de desempregados pode também exercer uma pressão baixista de salários em outras partes do mundo. Alguns economistas alertam que o aumento da produtividade é uma agravante a considerar porque deve contribuir para o agravamento a desigualdade social em larga escala.

O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) informa que após aumento de 24% no segundo trimestre de 2020, a produtividade retoma um baixo crescimento com alta de 4% no primeiro trimestre deste ano. Nos Estados Unidos, o ganho de produtividade no início deste ano foi o melhor em mais de uma década, segundo o J.P. Morgan que destaca o fato desse desempenho ter ajudado a arrefecer um aumento maior dos custos de mão de obra, mas também está contribuindo para retardar a recuperação do emprego. O J.P. calcula que no cenário de manutenção constante de expansão do PIB, cada ponto de aumento na produtividade reduz a necessidade de 1,2 milhão de trabalhadores no mercado. O foco da instituição é a economia americana.

Fonte: Freepik

Digitalização e produtividade

Em entrevista ao EXAME IN, o especialista José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, alerta que a digitalização tem importante impacto no ganho de produtividade e, por tabela, na oferta de emprego. “Em um ano de pandemia, a introdução de novas tecnologias expandiu as compras online e hoje se faz tudo pelo celular. Atribuo inclusive em parte a essas inovações a maior resiliência da economia.  E o efeito sobre o mercado de trabalho será de maior desigualdade com aumento de oferta para profissionais mais qualificados”, avalia.

O economista chama atenção para a retomada desigual da atividade e, portanto, do emprego. Camargo lembra que a retomada é mais forte no setor industrial onde as contratações são formais e mais fraca no setor de serviços que depende de contato presencial. A indústria já passou da fase pré-pandemia e contrata mais trabalhadores. Mas grande parte dos informais está voltada para serviços que atendem às famílias e, portanto, a retomada do trabalho é lenta.

Com a vacinação mais acelerada, diz José Márcio Camargo, o setor de serviços deverá crescer mais rapidamente que os demais. Contudo, a ocupação informal tende a aumentar. E por contribuição de dois fatores: a digitalização chamará ao mercado trabalhadores mais preparados; e a oferta de mão de obra de jovens com pouca experiência e que foram afastados do mercado pela pandemia. “Essa é uma das razões pelas quais o governo pretende incentivar empresas a dividir subsídios para assegurar maior qualificação profissional aos jovens”, diz o economista-chefe da Genial.

Em maio, segundo indicador proprietário do Itaú, o IDAT Emprego – construído a partir do processamento da folha de pagamento de empresas clientes do banco – a recuperação do mercado de trabalho continua, com a população ocupada formal voltando ao nível pré-pandemia. Quanto aos trabalhadores informais, a PNAD Contínua do IBGE mostra que o primeiro trimestre do ano fechou com taxa de 39,6%, um contingente de 34 milhões de pessoas.

Tony Volpon, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central e atualmente estrategista-chefe da Wealth High Governance (WHG), concorda com Camargo e alerta para a expansão dos investimentos em tecnologia no último ano. Ao EXAME IN, Volpon destaca o maior desemprego no varejo com o avanço das operações online. “E a visão que se tem hoje é que parte desse emprego não vai voltar mesmo quando a economia se normalizar. Nesse ponto, o Brasil tem desafios maiores à frente porque a digitalização que veio para ficar, sobretudo em serviços, poderá gerar um contingente de desempregados tecnológicos.”

O estrategista da WHG, baseado em Nova York, lembra que, nos Estados Unidos, a restrição de oferta de mão de obra está relacionada ao auxílio emergencial elevado garantido pelo governo Joe Biden. “A população de baixa renda não está procurando emprego porque não precisa. Tem dinheiro disponível. O benefício foi estendido até setembro. Vai acabar, mas ainda há mais um trimestre pela frente”, pondera.

Trabalho é questão política

Roberto Attuch, CEO da Ohmresearch, também baseado em Nova York, reconhece que a inflação de 5% anualizada nos Estados Unidos é relevante, mas pondera que ela deixou de ser alvo de atenção que passou a ser a perspectiva de crescimento econômico em 2022. Ao EXAME IN, Attuch lembra que, na retomada, se há falta de mão de obra há a digitalização maior da economia que trouxe ganhos de produtividade. “Uma verdadeira ‘uberização’ da força de trabalho”, diz o economista para quem a digitalização dos serviços é desinflacionaria e implica em perda do poder de barganha de trabalhadores por salários.

Aditya Bhave, economista global do Bank of America (BofA), afirma que os Estados Unidos assistem a um aperto no mercado de trabalho que poderá, sim, resultar em uma inflação salarial significativa. “Já na maioria das outras grandes economias, onde a reabertura é mais lenta, há folga considerável no mercado de trabalho”, avalia. Ao EXAME IN, Bhave reforça que o pleno emprego sempre foi um dos mandatos do Fed e uma questão politicamente importante. Ele vê o Fed inclinado a um mercado de e trabalho mais aquecido porque experiência anterior revelou que os trabalhadores informais, os de baixos rendimentos e as minorias se beneficiam ao final de um ciclo econômico, quando o mercado volta ao pleno emprego que pode ser alcançado, portanto, sem um pico indesejável de inflação.

Os EUA estão no centro da discussão sobre mercado de trabalho exatamente porque flagram um aumento de custos por escassez de mão de obra. Nesse sentido, o BofA considera crucial o ritmo em que vai se dar o regresso de trabalhadores ao mercado. O banco calcula que além dos 9,7 milhões de trabalhadores oficialmente declarados desempregados no país, há cerca de 4,6 milhões que estão fora da força de trabalho por questões relacionadas com a Covid e em função auxílio de US$ 300 semanais que desincentiva o retorno à atividade.

original de exame