Leite: Saiba como a alta da arroba interfere no mercado

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Recentemente, a situação da pecuária de corte tem se mostrado bastante positiva em relação a precificação. O valor da arroba passou por sucessivos aumentos e atingiu um patamar recorde: R$317,28 em junho/2021! Esse cenário é resultado de uma demanda externa aquecida e da baixa oferta de animais para o abate no Brasil.

Segundo o IBGE, em 2020, foram abatidas 29,55 milhões de cabeças de gado no país, 9% a menos que no ano anterior e o menor volume desde 2011. Diferentemente do que ocorreu 10 anos atrás, quando, apesar da queda no abate, não houve alta considerável no valor da arroba, este ano tivemos ampliação considerável da demanda externa no mesmo período, que – combinada com a menor oferta de carne disponível – fez com que os preços disparassem.

De acordo com dados da Secex, as exportações brasileiras de carne bovina atingiram o recorde de 2,0 milhões de toneladas em 2020, crescimento de 8% na comparação com as 1,8 milhão de toneladas verificadas em 2019. Quando comparamos com as 820 mil toneladas exportadas em 2011, em 2020, foram mais de um milhão de toneladas a mais.

Este cenário certamente impacta a produção e a cadeia leiteira. O melhor indicador para explicarmos as mudanças geradas na cadeia do leite a partir desta movimentação no mercado de carne bovina é a relação de troca entre o leite e a arroba do boi. Este número nos diz quantos litros de leite são necessários para ‘comprar’ uma arroba de boi – quanto maior o valor, mais o leite estará desvalorizado em relação ao boi.

No ano de 2020 acompanhamos um salto nos valores desta relação, com a média do ano superando em 32% o valor de 2019. Em 2021, a média de janeiro-junho já é 9% maior em relação ao mesmo período do ano anterior.

Vale destacar que em março de 2021, o indicador chegou ao valor recorde de 160 litros por arroba, aumento de 5% em relação a fevereiro de 2021 – 152 litros por arroba. Claramente, portanto, temos um incentivo maior em 2021 para o abate de vacas do que o que estamos acostumados a ter.

Por: Freepik

Não podemos, entretanto, simplesmente abater os animais sem nenhum critério. O abate deve ser sim uma opção para geração de receita em um momento complicado, mas deve ser utilizado com inteligência.

Os animais a serem abatidos devem ser aqueles com menor capacidade produtiva, com eventuais problemas reprodutivos ou idade mais avançada, por exemplo. Além da rentabilização direta destes animais “secos”, há vantagem ainda na racionalização de custos da propriedade.

O abate de muitos animais visando o lucro com o alto preço da arroba diminui a produção brasileira de leite, uma vez que menos animais produzem menos leite. Com essa oferta de leite reduzida, o preço do produto tende a alta nessas situações. 

Além do cuidado com o abate dos animais corretos, devemos nos atentar ao momento do mercado. Estamos caminhando para o período de entressafra, e neste ano devemos ter não só a queda natural do período na oferta de leite no campo, mas também a diminuição causada por este maior abate de vacas.

Somado a este choque de oferta, espera-se, ao menos para o segundo semestre, uma recuperação da demanda a partir da retomada gradual das atividades econômicas do país.

Assim, há expectativa para manutenção dos preços do leite matéria-prima em bons valores, havendo boa oportunidade para aqueles que se mantiverem na atividade neste momento difícil. Não se desespere e haja racionalmente, produtor!

Original de MilkPoint