O destino da produção de Leite nacional

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Goiás produz 9% do leite nacional. Especialistas avaliam cenários, principais desafios, avanços e soluções que estão sendo discutidas para o desenvolvimento da cadeia láctea no Estado

Completo e complexo. Falar do leite é discutir o futuro de uma atividade que sustenta famílias em todos os municípios brasileiros e alimenta o País. O leite fornece cálcio, é rico em proteína e contém inúmeros nutrientes, como o magnésio e a vitamina B12. Seu consumo é fundamental para a saúde. Tanto que, internacionalmente, no dia 1º de junho, comemora-se o Dia Mundial do Leite. A data, criada em 2001, pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU), objetiva incentivar a população a consumir lácteos.

O diretor executivo do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), Edson Novaes, frisa a relevância da atividade. “Do ponto de vista social e econômico, o leite representa uma das mais importantes cadeias produtivas de Goiás e do País. Ele gera mais de 220 mil empregos diretos e indiretos, em Goiás, e mais de 4 milhões, no Brasil”, aponta.

Edson cita os últimos dados do Censo Agropecuário, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2017. O levantamento aponta que o Brasil conta com mais de 1,2 milhão de produtores de leite e a produção supera 33 bilhões de litros de leite por ano. Em Goiás, são 72 mil produtores e a produção atinge mais de 3 bilhões de litros de leite por ano. O executivo reforça que a atividade está presente nos 246 municípios goianos. “São mais de R$ 32 bilhões de reais que movimentaram a economia do País e R$ 5,3 bilhões gerados em Goiás, no ano de 2020”, diz.  

Ele afirma que os números da atividade impressionam, mas o setor passa por grandes desafios. “Na verdade, o setor lácteo avançou muito na última década. Evoluímos na qualidade do produto, na gestão e na profissionalização dos produtores”, cita. “Melhoramos o processamento industrial com inovações que tornaram a bovinocultura leiteira uma das atividades mais avançadas em termos de inserção tecnológica no País”.

As estimativas do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária (Ifag) mostram, que no ano passado, a produção goiana representou 9% da produção total nacional. Este volume posicionou Goiás como o quinto colocado no ranking nacional. 

As maiores bacias leiteiras do Estado estão concentradas nos municípios de Orizona, Piracanjuba, Jataí, Bela Vista de Goiás, Rio Verde, Pontalina, Silvânia, Pirenópolis, Itapuranga, Vianópolis e Morrinhos. As regiões Sul e Centro são as maiores responsáveis pela produção leiteira do Estado, com 46,9% e 33,4% respectivamente.

O rebanho leiteiro brasileiro é o segundo maior do mundo. O primeiro lugar pertence à Índia. As informações são da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Gado de Leite). Os últimos registros disponibilizados pelo IBGE, são de 2019. 

Principais desafios

O Sistema Faeg Senar, Ifag e Sebrae Goiás realizaram um “Diagnóstico da Cadeia Láctea do Estado de Goiás”, em 2019. O documento indica os principais gargalos identificados pelos produtores, indústrias, laticínios, cooperativas e supermercados.

Para os produtores, o diagnóstico apontou como desafios a instabilidade e falta de previsibilidade dos preços, prazo longo de recebimento pelo leite entregue, custo elevado de produção e de insumos. Já do ponto de vista das indústrias, os gargalos são relacionados ao baixo volume de leite por quilômetro percorrido, alto custo de transporte e produção, falta de mão de obra especializada, ausência de infraestrutura e logística, fornecimento de energia elétrica deficiente e baixo consumo de leite e derivados.

De acordo com o Edson Novaes, do Ifag, estes inúmeros desafios que ainda necessitam ser superados, fizeram com que a atividade de pecuária de leite em Goiás, na última década, tivesse uma queda na produção de 3,19 bilhões de litros (em 2010) para 3,02 bilhões de litros (em 2020), fazendo o Estado cair da 4ª para a 5ª colocação no ranking nacional. 

Na opinião do diretor do Ifag, o Diagnóstico apresenta os principais desafios a serem superados para que a atividade tenha crescimento de forma sustentável. “São desafios que afetam desde a produção dentro da porteira, como fatores naturais que impactam diretamente na atividade produtiva”. Dentre eles, Edson, cita a adversidade climática que provocou queda na produção de milho em 2021, aumentando ainda mais os custos da atividade. “Além destes, somam-se os aspectos fora da porteira, sobre os quais o produtor não tem governança e que travam o desenvolvimento da atividade, gerando, principalmente, queda da rentabilidade do produtor de leite”, ressalta.

Edson afirma que parte desses desafios estão presentes nas atuais discussões do setor em Goiás e reforça que a superação destes gargalos é fundamental para a continuidade do crescimento e desenvolvimento da atividade láctea, e, consequentemente, para a geração de renda para o produtor e melhoria para toda a sociedade.

Para o analista, existem dois problemas cruciais que afetam a produção de leite goiana e brasileira. “O primeiro diz respeito ao que chamamos de previsibilidade de preços ao produtor. Ela retrata a necessidade do produtor de saber dos preços do leite que irá vender e não o de entregar aos laticínios.  Edson explica que, no modelo atual, o produtor de leite entrega em um mês e só irá saber do preço do produto que produziu e entregou, no 25º dia do mês subsequente. O segundo problema é o prazo que o produtor recebe pelo produto que entregou. “Da mesma forma da previsibilidade do preço, ele só irá receber pelo leite que entregou no mês, no 25º dia subsequente ao mês que produziu e entregou à indústria”. 

“Esses dois problemas afetam sobremaneira o setor, prejudicando o planejamento da atividade, a curto, médio e longo prazo e interferindo no crescimento da produção e, consequentemente, na renda dos produtores”, ressalta o diretor. “É preciso avançar na solução destas questões para que haja um melhor direcionamento das políticas de desenvolvimento para o setor”.  

De acordo com o executivo, outro grande entrave para o setor diz respeito aos elevados níveis de importações de produtos lácteos que adentram ao País.  “Como a pecuária leiteira tem caráter social, por ser fonte de renda essencial para milhares de pequenos produtores e suas famílias, o leite importado que adentra o território nacional impacta diretamente a produção interna”, justifica. Ele explica que o importado pressiona os preços recebido pelos produtores, desestimulando a produção, e, consequentemente, impactando na perda de renda de milhares de famílias e trabalhadores do setor. 

Neste sentido, o executivo afirma que a atividade necessita de uma política pública específica para dar diretrizes ao comércio exterior, coibindo excedentes que possam prejudicar a estrutura social que a atividade tem para o País e para o Estado de Goiás.

Projeções

Quanto ao futuro do mercado lácteo, o consultor Valter Galan, do portal Milk Point, aponta que o próximo semestre requer ajustes na relação entre produtor e indústria para que ambos possam manter rentabilidade, uma vez que os preços do milho e da soja seguirão pressionando fortemente os custos de produção na fazenda.  “Com a provável frustração da segunda safra de milho, este cenário persistirá, pelo menos, até o final do ano”, alerta. 

“Sem uma contrapartida proporcional em preços de leite, a rentabilidade dos produtores vem caindo fortemente, o que tende a repercutir, negativamente, em produção nos próximos meses — isso sem falar na relação bastante desvantajosa para o leite em relação à arroba de boi e às questões climáticas que vem atrapalhando a produção de forrageiras em diferentes bacias”, frisa o analista. 

Na opinião de Valter, a situação de produtores e indústrias este ano está igualmente crítica. Como o consumo de lácteos está intimamente ligado ao poder aquisitivo da população, o varejo e a cadeia láctea torcem pela rápida retomada econômica para que a demanda permaneça aquecida.

Para o consultor, o principal entrave para expansão da bovinocultura leiteira brasileira é a falta de previsibilidade de preços ao produtor e diante do prisma atual, Valter aconselha o produtor a prestar cada vez mais atenção na gestão dos custos e na estrutura que ele tem na propriedade. “É fundamental ter uma produção adequada ao investimento realizado”, aconselha o consultor do Milk Point. 

Por: Freepik

Saneamento de entraves

Para ajudar os produtores na busca pela previsibilidade de preços e antecipação do prazo de pagamento, o presidente da Comissão Pecuária de Leite da Faeg e produtor de leite, Vinícius Correia, salienta que algumas ações foram iniciadas pela Faeg, para fazer frente a esses desafios. Uma delas é a Câmara Técnica de Conciliação da Cadeia Láctea de Goiás, criada pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado, em 2019. “A Câmara objetiva uma maior harmonização de interesses entre todos os elos da cadeia láctea, principalmente na relação entre produtor e indústria, para discutir os problemas e soluções para o setor”, explica o presidente. 

Dentro da Câmara Técnica, foi criado o Índice de Preços da Cesta de Derivados Lácteos, que é calculado pelo Instituto Mauro Borges, discutido e desenvolvido por meio de um diálogo entre representantes do setor produtivo primário e setor industrial, e que é utilizado para o monitoramento do comportamento de mercado dos preços dos principais produtos derivados lácteos produzidos pelas indústrias de Goiás.

Vinícius explica que o objetivo do índice é servir como referência para que os produtores e indústrias possam negociar, entre si, os preços pelo leite que foi produzido e comercializado pelos produtores. O presidente destaca que este trabalho visa dar maior transparência à relação produtor/indústria. De acordo com o dirigente, a Comissão da Faeg está estudando algumas adequações para melhor atender a realidade atual do setor produtivo primário.

Quanto à previsibilidade de preços e à antecipação do prazo de pagamento, a Comissão continua trabalhando para que as indústrias possam passar para os produtores, com antecedência, os preços a serem pagos para o leite que deverá ser comercializado no mês seguinte. Além destes, o grupo estuda mecanismos para que as indústrias possam efetuar os pagamentos dos produtores, com um prazo que seja exequível com seus pagamentos e com seu fluxo de caixa.

Já sobre as importações excessivas de produtos lácteos, o diretor do Ifag, Edson Novaes explica que a Comissão da Faeg, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) estão atuando junto aos ministérios da Agricultura e da Indústria e Comércio, para coibir o excesso de importações de lácteos. 

Outras ações em prol do setor continuam sendo acompanhadas e trabalhadas, como ações referentes às políticas tributárias, sanitárias, ambientais e outras políticas públicas que interferem para o crescimento e desenvolvimento da atividade de pecuária leiteira de Goiás e do País.

Regulamentação de importações

O presidente do Sistema Faeg Senar, deputado federal Zé Mário Schreiner, é autor de um projeto de Lei, na Câmara Federal, o PL nº 952/2019, que foi aprovado por unanimidade na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, no dia 09 de outubro de 2019.

Este projeto pretende regulamentar as importações de leite em pó integral e desnatado no Brasil, trazendo a exigência de que os produtos cheguem ao País com, no mínimo, 70% de seu prazo de validade total. Atualmente, sem a exigência de uma validade mínima, muitos importadores brasileiros se utilizam de situações de mercado, em que empresas internacionais ofertam leite em pó a preços abaixo do valor praticado, para dar vazão a produtos com prazo de validade próximo ao vencimento. Essa prática, representa um risco sanitário para o consumidor brasileiro e cria distorções de mercado, pelo excesso de leite que entra no País. A proposta aguarda apreciação pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) e está pronta para pauta. 

Capacitações do Senar Goiás

De acordo com a Embrapa, no acumulado de 12 meses (abril de 2020 a março de 2021), a despesa com alimentação concentrada aumentou 57%. A elevação nos gastos com nutrição tem levado os produtores a buscarem novas alternativas. “Em terra alugada e com o preço da ração no patamar que está, não dá para seguir do mesmo jeito”, afirma o produtor de leite, Cleidimar Rosa. Ele buscou capacitações do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar Goiás) para melhorar seus lucros e se manter na atividade.

Cleidimar trabalhava em uma usina de cana-de-açúcar e, há dois anos, resolveu alugar uma propriedade, no município de Gouvelândia, onde mantém 17 vacas. O apreço pela atividade leiteira é herança do avô. Ele diz que estava muito difícil conseguir permanecer na atividade, porque o manejo era feito como antigamente. “O rebanho ficava no pasto direto. Vacas soltas, ração cara e lucro só caiando”, lembra o produtor.

“No Senar aprendi a cuidar da produção e do manejo. Fiz os cursos de inseminação artificial, casqueamento preventivo, manutenção de ordenha, manejo de pastagens e produção de derivados de leite”, conta. Durante o curso de Manejo de Pastagem, Cleidimar aprendeu a criar piquetes e a fazer pasto rotacionado. “Já fiz dez piquetes e pretendo fazer mais dez. Usei o espaço para plantar o capim-  capiaçu. Investi na adubação e a resposta está 100% melhor. O capim deu três cortes, fiz silagem para usar no trato das vacas durante a seca. Minha esperança é organizar a atividade”, comenta. “O capim é excelente e estou implementando o que aprendi desde março”.  Ele tira 140 litros de leite por dia. No último mês, recebeu R$ 1,69 por litro de leite. E, afirma, que vai seguir administrando o pasto de forma mais sustentável, conforme a instrutora Letícia Vilela o ensinou. 

Além de oferecer dezenas de cursos específicos para quem atua na bovinocultura leiteira, o Senar Goiás presta Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) para mais produtores de leite. “Oferecemos assistência técnica para fazendas que estão ineficientes do ponto de vista da produção e produtividade, que precisam compreender melhor os aspectos econômicos e a gestão profissional das atividades, com objetivo de transformá-las em um sistema mais atrativo, que leve rentabilidade e mais qualidade de vida ao produtor de leite”, explica o gerente da ATeG, Guilherme Bizinoto.

A equipe de campo do Senar Goiás atua diretamente com o produtor, colaborando para que ele perceba quais são as melhores práticas para solucionar cada uma das etapas que compreendem a complexa atividade leiteira. O grupo cita que um bom manejo de cria e cuidados com o bezerreiro na fase inicial garantem um melhor desenvolvimento das fêmeas, que futuramente serão os animais produtivos. A equipe orienta o produtor a ter atenção também para a recria, que ao ser bem conduzida, fará com que a novilha chegue com a idade ideal de 24 meses no primeiro parto. Quanto às vacas em lactação, o foco é a nutrição correta. 

Quanto às lições para alcançar um futuro de sucesso na pecuária leiteira, todos os entrevistados aconselham o produtor a ter uma visão empresarial da propriedade e a profissionalizar cada etapa do seu trabalho nesta complexa cadeia, tornando seu negócio cada vez mais lucrativo e o leite produzido cada vez melhor e mais completo. 

original de sistema FAEG