Vacas leiteiras: Erro no balanceamento de dietas para o teor de amido traz prejuízos

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Hoje discutiremos um outro erro frequente na formulação de dietas de vacas leiteiras.

Nos artigos anteriores desta série, destacamos que na formulação de dietas temos que descrever, com a maior exatidão possível, a vaca que representa a média dos animais do lote para o qual estamos formulando a dieta.

Mais especificamente nos dois artigos anteriores, sétimo e oitavo artigos desta série, demonstramos a importância de determinar com frequência o real teor de MS e fazer análises bromatológicas frequentes, particularmente dos alimentos volumosos e subprodutos.

Hoje focaremos num erro frequente que nutricionistas podem cometer quando tentam balancear uma dieta para o teor de amido.

Uma primeira dificuldade em formular para % amido é o fato que o último NRC de bovinos leiteiros, publicado em 2001, não trouxe exigências para amido e na sua biblioteca de alimentos não há concentrações médias sugeridas para este nutriente. Esta limitação do NRC (2001) certamente será superada com o lançamento do novo NRC, que acontecerá em poucas semanas nos EUA.

No caso do RLM Leite, apesar de ser um programa de formulação baseado no NRC (2001), decidimos não esperar este lançamento e há anos os usuários do RLM Leite já podem balancear o teor de amido das suas dietas. Ao invés de cadastrar valores médios de amido, adotamos a estratégia de estimar o % de amido a partir da porcentagem de CNF (Carboidratos Não Fibrosos), usando um fator multiplicativo de estimativa do teor de amido a partir do CNF.

Assumindo uma típica composição de silagem de milho no Paraná, baseada em mais de 1.600 análises químicas nos últimos 15 anos, temos: 31,5%MS, 7,50%PB (proteína bruta), 3,23%EE (extrato etéreo), 3,78%RM (resíduo mineral), 49,51%FDN (fibra em detergente neutro) e 1,3%PB-FDN (proteína bruta associada à FDN). Com estes valores, estimamos o teor de CNF:

Fonte: MilkPoint

Usando um fator de estimação do teor de amido a partir do CNF, único para cada alimento, podemos estimar o teor de amido. No caso de silagem de milho usamos o valor 71,3%, ou seja, estima-se que 71,3% do CNF é amido e os restantes 28,7% são ácidos orgânicos, açúcar, frutanas, pectina e beta-glucanas. Assim teríamos:

Fonte: MilkPoint

Cabe ressaltar que este é tão somente um valor sugerido de amido que o RLM Leite oferece ao usuário, mas este tem liberdade de alterar este valor, particularmente se possuir uma análise confiável da silagem de milho incluindo o teor de amido.

Uma segunda dificuldade em formular para % amido é o fato que as análises químicas de amido, por metodologia enzimática, são caras e trabalhosas, e assim, poucos laboratórios de bromatologia animal oferecem este serviço comercialmente. Assim, grande parte dos nutricionistas acabam balanceando suas dietas para teor de amido usando análises de NIRS (espectroscopia de reflectância no infravermelho proximal), oferecidas por exemplo por laboratórios como 3rLab, ESALQLab e Fundação ABC. 

Usar análises de NIRS para balancear o amido dietético é satisfatório, mas esporadicamente alguns laudos acabam indicando valores de amido demasiadamente altos ou baixos, não condizentes com a silagem de milho que está sendo ofertada aos animais. Assim o que sugerimos é que todo nutricionista ao receber um laudo de análise de silagem de milho oriunda de NIRS, tenha o bom senso de interpretar e avaliar os resultados, em particular a porcentagem de amido. A estratégia descrita acima, de estimar o teor de amido a partir do CNF, também pode ser usada como uma “segunda opinião”.

Inúmeras vezes em treinamentos de formulação de dietas ou ao visitar propriedades leiteiras atendidas por colegas nutricionistas, constatamos erros de formulação causados pelo nutricionista estar confiando “cegamente” na estimativa de teor de amido de uma análise de NIRS. E com isso, diminuir sem necessidade ou aumentar perigosamente a inclusão de fontes de amido na dieta. Vamos exemplificar as duas situações:

Num primeiro cenário, vamos assumir que a propriedade tem disponível uma silagem de milho de mediana qualidade, com 27% de amido. Mas o laudo de análise erroneamente informa uma estimativa de 32% de amido. Ou seja, o laudo sugere uma silagem de milho muito melhor do que ela realmente é. Se o nutricionista não questionar este valor do laudo e usá-lo na formulação, ele pode erroneamente concluir que o teor de amido da dieta está muito alto.

Na melhor das boas intenções, ele pode diminuir a inclusão das fontes de amido e substituí-las (sem necessidade!) por fontes energéticas não-amiláceas (por exemplo, casca de soja, polpa cítrica ou caroço de algodão), afinal ele não quer estourar o limite máximo de amido da dieta. Neste caso, baseado na crença que a silagem tem amido alto, ele acha que a sua dieta tem amido adequado, mas na realidade está faltando amido na dieta. Consequências? Diminuição de produção de leite e dos teores de proteína do leite.

Num cenário oposto, vamos assumir que a propriedade tem disponível uma silagem de milho de boa qualidade, com 32% de amido. Mas o laudo de análise erroneamente estimou em 27% de amido. Ou seja, o laudo indica uma silagem de milho muito pior do que ela realmente é.

Se o nutricionista não questionar este valor do laudo e usá-lo na formulação, ele pode erroneamente concluir que o teor de amido da dieta está muito baixo. E novamente muito bem intencionado, ele pode aumentar a inclusão das fontes de amido (milho grão moído, milho reidratado ou silagem de grão úmido de milho), afinal ele acha que está faltando amido na dieta. Neste caso, baseado na crença que a silagem tem amido baixo, ele acha que a sua dieta precisa de mais amido, mas na realidade o teor de amido da dieta já estava adequado. Consequências? Ocorrência de acidose ruminal sub-clínica (SARA), depressão da gordura do leite e vacas mancando.

Em resumo, de maneira alguma estamos recomendando não usar as análises bromatológicas oriundas do NIRS, muito pelo contrário! O que estamos sugerindo, particularmente para os resultados de amido, é que o nutricionista sempre desconfie, questione e “fique com um pé atrás”.

Recomendações de Amido Dietético

Alguns programas de formulação recomendam que dietas de vacas em lactação deveriam ter entre 20 e 30% de amido na MS. É uma recomendação satisfatória, mas talvez “aberta” demais. Para rebanhos confinados e semi-confinados, temos recomendado valores entre 22 e 28% de amido na MS.

Assumindo que o rebanho não adote dieta única, nós recomendaríamos valores de amido moderados no lote pós-parto (ao redor de 25%MS), valores máximos no lote de alta produção (ao redor de 28%MS), novamente valores medianos no lote de média produção (ao redor de 25%MS) e valores menores no lote de baixa produção (ao redor de 22%MS). Esta última recomendação é particularmente importante pois já está bem demonstrado que dietas de amido alto no fim da lactação engordam demasiadamente as vacas!

E quais são as consequências de trabalharmos com teores de amido dietéticos muito baixos ou muito altos?

  • Se as concentrações dietéticas de amido forem muito baixas, insuficientes para atender os requerimentos animais, a produção de leite cairá, haverá menor síntese de proteína microbiana no rúmen, por consequência menores teores de proteína no leite e ainda, maiores valores de nitrogênio ureico no leite (NUL).
  • Se por outro lado as concentrações de amido da dieta forem muito altas ou excessivas, além das necessárias para atender as exigências animais, haverá queda do pH ruminal, eventos de acidose ruminal subclínica, maior predisposição à laminite e claudicação e menores teores de gordura do leite.

Autores 
Prof. Dr. Rodrigo de Almeida
Universidade Federal do Paraná
Curitiba – PR

Mestrando Josué Teófilo Ramos de Carvalho
Universidade Federal do Paraná
Curitiba – PR

Grad. Med. Vet. Maria Antônia Aguiar
Universidade Federal do Paraná
Curitiba – PR

Fonte: MilkPoint