Cana-de-açúcar e a transição energética

O país é o segundo maior produtor mundial do biocombustível, atrás apenas dos Estados Unidos, e o único que conseguiu substituir de forma significativa a gasolina na matriz de combustíveis de uma grande economia.

Na safra 2023/24, o Brasil produziu cerca de 35 bilhões de litros de etanol, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA). Desse total, aproximadamente 70% foi destinado ao mercado interno.

O que torna o etanol brasileiro diferente não é apenas o volume. É a eficiência energética, o ciclo de carbono e a infraestrutura consolidada que fazem do modelo nacional uma referência difícil de replicar em outros contextos. 

Entender essa diferença é o que este artigo propõe, com um olhar sobre a cadeia produtiva, os mecanismos de política pública e os desafios que ainda precisam ser superados para que o etanol brasileiro ocupe o espaço que merece na transição energética global.

Por que o etanol de cana é diferente dos outros?

Nem todo etanol é igual. O biocombustível produzido a partir do milho, dominante nos Estados Unidos, e o etanol de cana brasileiro têm perfis energéticos e ambientais bastante distintos. Essa diferença importa especialmente no contexto climático atual.

O etanol de cana apresenta um balanço energético significativamente superior. Para cada unidade de energia fóssil investida na produção, o etanol brasileiro gera entre 8 e 10 unidades de energia renovável. 

O etanol de milho norte-americano, por comparação, gera entre 1,3 e 1,8 unidades para cada unidade investida, segundo dados publicados pelo NREL (National Renewable Energy Laboratory).

Em termos de emissões, estudos conduzidos pela Embrapa e pelo CTBE (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais) indicam que o etanol de cana reduz entre 70% e 90% das emissões de gases de efeito estufa em comparação à gasolina, considerando o ciclo de vida completo do produto. 

Nenhum outro biocombustível em produção comercial em escala global chega perto desse índice.

A estrutura produtiva por trás dos números

O desempenho do etanol brasileiro não é resultado de um único fator. É a combinação de condições edafoclimáticas favoráveis, desenvolvimento varietal contínuo e uma cadeia agroindustrial madura que opera há mais de quatro décadas.

A cana como matéria-prima de alta eficiência

A cana-de-açúcar é uma das plantas com maior eficiência fotossintética do mundo. Sua capacidade de converter energia solar em biomassa supera a maioria das culturas utilizadas para produção de biocombustíveis. 

No Brasil, as variedades cultivadas atualmente são resultado de décadas de melhoramento genético conduzido por institutos como o IAC (Instituto Agronômico de Campinas) e o CTC (Centro de Tecnologia Canavieira), com ganhos consistentes em produtividade e resistência a doenças.

A produtividade média nacional gira em torno de 75 a 80 toneladas de cana por hectare, mas as melhores lavouras do Centro-Sul superam 100 toneladas por hectare em condições adequadas de manejo. 

Manter esse nível de produtividade exige atenção a uma série de práticas agronômicas que vão da escolha da variedade ao manejo fitossanitário. Alguns dos principais indicadores de qualidade da matéria-prima, como TCH (toneladas de cana por hectare) e ATR (açúcar total recuperável), e as práticas que os influenciam estão detalhados neste conteúdo sobre como proteger a qualidade da cana.

Da usina ao posto: a cadeia que o Brasil construiu

O Brasil possui hoje mais de 350 unidades produtoras de etanol e açúcar em operação, concentradas principalmente no Centro-Sul do país. Essa infraestrutura representa décadas de investimento privado e política pública, desde o Proálcool, lançado em 1975, até os mecanismos regulatórios mais recentes.

A logística de distribuição, as frotas flex-fuel e a rede de postos adaptados para etanol formam um ecossistema que nenhum outro país conseguiu replicar em escala comparável. 

É justamente essa integração entre produção agrícola, processamento industrial e distribuição que garante a competitividade do biocombustível brasileiro frente à gasolina no mercado interno.

RenovaBio: a política que colocou o carbono no centro do negócio

Lançado em 2018 e operacional a partir de 2020, o RenovaBio é o principal instrumento de política pública para biocombustíveis no Brasil atualmente. 

O programa funciona com base em metas de descarbonização para distribuidoras de combustíveis, que precisam adquirir Créditos de Descarbonização (CBIOs) para cumprir suas obrigações anuais.

Cada CBIO representa uma tonelada de CO₂ equivalente que deixa de ser emitida pela substituição de combustível fóssil por biocombustível. 

Os produtores de etanol, biodiesel e outros biocombustíveis certificados pelo programa podem gerar e vender esses créditos, criando uma receita adicional atrelada diretamente ao desempenho ambiental de cada unidade produtora.

O impacto do RenovaBio pode ser acompanhado pelos seguintes números:

IndicadorResultado (2023)
CBIOs emitidosMais de 35 milhões de créditos
Redução de emissões verificadaEquivalente a retirar milhões de veículos de circulação
Usinas certificadasMais de 300 unidades produtoras
Meta de redução acumulada até 2030600 milhões de toneladas de CO₂ equivalente

O programa criou um incentivo inédito para que as usinas invistam em eficiência energética e redução de emissões ao longo de toda a cadeia, desde o cultivo da cana até a entrega do etanol ao consumidor final.

Etanol de segunda geração: a fronteira que ainda está sendo aberta

O etanol convencional, produzido a partir do caldo e do melaço da cana, já está em sua maturidade tecnológica. O próximo passo é o etanol de segunda geração (E2G), produzido a partir do bagaço e da palha, que hoje são em grande parte queimados para geração de energia nas próprias usinas.

O potencial é expressivo. Estudos do CTBE estimam que o aproveitamento do bagaço e da palha para produção de E2G poderia aumentar em até 40% o volume de etanol produzido por hectare de cana, sem necessidade de expandir a área cultivada.

A tecnologia já é comercialmente viável, com algumas usinas no Brasil operando unidades de E2G em escala industrial. O principal gargalo ainda é o custo de produção, que segue acima do etanol convencional, mas a tendência é de redução progressiva à medida que a escala aumenta e os processos de hidrólise enzimática e fermentação são otimizados.

O que falta para o etanol brasileiro conquistar o mercado global?

Com toda a sua competitividade, o etanol brasileiro ainda enfrenta barreiras para ampliar sua participação no mercado internacional. As principais são:

  • Barreiras tarifárias: os Estados Unidos mantêm tarifas de importação sobre o etanol brasileiro, limitando o acesso ao maior mercado consumidor do mundo.
  • Falta de reconhecimento nos acordos climáticos: apesar do perfil de baixo carbono, o etanol de cana ainda não recebe o mesmo tratamento preferencial que outras fontes renováveis em acordos como o Acordo de Paris e as políticas de transporte da União Europeia.
  • Concorrência com o carro elétrico: o avanço dos veículos elétricos nos mercados desenvolvidos representa um desafio de longo prazo para a demanda por qualquer combustível líquido, incluindo o etanol.
  • Dependência do mercado interno: a falta de diversificação dos destinos de exportação torna o setor vulnerável a variações cambiais e às políticas de mistura obrigatória definidas pelo governo brasileiro.

Superar essas barreiras exige diplomacia comercial, comunicação sobre o perfil ambiental do produto e desenvolvimento de novos mercados, especialmente em países emergentes que ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis no transporte.

Uma cultura, múltiplos papéis na agricultura brasileira

Além da dimensão energética, a cana-de-açúcar desempenha um papel relevante na estrutura agrícola e social do Brasil. 

A cultura gera milhões de empregos diretos e indiretos, sustenta economias regionais inteiras e passou por uma transformação significativa nas últimas décadas em termos de sustentabilidade, com a eliminação praticamente completa da queima prévia à colheita nas principais regiões produtoras.

Essa evolução está documentada nos marcos da produção sustentável da cana no Brasil, que incluem a mecanização da colheita, o aproveitamento integral da biomassa e os avanços no manejo hídrico e de fertilidade do solo. 

Um panorama completo sobre essa trajetória pode ser encontrado no conteúdo sobre produção sustentável de cana-de-açúcar no portal Mais Agro.

Uma solução madura em um mundo que ainda procura respostas

O etanol brasileiro não é uma promessa futura. É uma tecnologia madura, em escala industrial, com resultados ambientais comprovados e uma cadeia produtiva consolidada. 

Em um mundo que busca urgentemente alternativas aos combustíveis fósseis, ignorar essa solução disponível seria um desperdício estratégico.

Os desafios existem e precisam ser enfrentados, seja na abertura de mercados internacionais, seja no desenvolvimento do E2G ou na adaptação ao novo cenário de eletrificação do transporte. Mas a base já está construída. 

O que o Brasil tem a oferecer ao mundo na transição energética começa, literalmente, nos canaviais.

Sobre o Mais Agro

O Mais Agro é o hub de conteúdo técnico da Syngenta, dedicado a levar informação confiável, análises de mercado, práticas de manejo e tendências agrícolas para produtores, consultores, pesquisadores e toda a cadeia do agronegócio. 

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Para saber mais, acesse o hub.

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Nutricionista de formação, redatora por paixão. Minha missão é compartilhar conhecimentos!

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